Nascido em Pesqueira e criado em Poção, no Agreste pernambucano, Rafael começou a aprender o que sabe sobre a renda renascença ainda criança. Queria comprar, numa revista, um “galinho que mudava de cor conforme o clima” e, para conseguir o dinheiro necessário, resolveu aprender a técnica artesanal com a avó, Maria do Céu Nunes Leite. Conseguiu comprar o galo, que guarda até hoje, e a avó ainda acompanha o seu trabalho. Aprimorando a técnica europeia que tomou personalidade na região e driblando preconceitos, o artesão profissional Rafael Leite imprimiu um novo olhar sobre as peças e ganhou o mundo.
“Minha avó começou a me ensinar a fazer renda para eu conseguir o dinheiro. Minha mãe também me incentivou a aprender. Com o tempo, e superando os preconceitos da época, porque geralmente a renda era feita por meninas, eu fui desenvolvendo a técnica”, relembra Rafael. A produção, que começou em casa, ainda carrega muito dessa característica artesanal e familiar. “Mas hoje o trabalho cresceu, envolve outras rendeiras e ganhou uma estrutura mais profissional, com meu novo ateliê, onde fazemos a produção”.
A CAMINHO DA ARTE
Em 2021, Rafael participou do Mãos que Criam, projeto de qualificação profissional. Ao fim do curso, os alunos tinham que apresentar as peças produzidas: foi a oportunidade de o artesão inovar e experimentar uma nova forma de trabalhar a renda renascença. “Surgiu a ideia de fazer uma releitura do ‘Abaporu’. A obra tem um significado muito importante porque desde criança estudamos sobre ela”, conta Rafael, sobre uma das obras mais famosas do modernismo brasileiro, criada pela artista plástica Tarsila do Amaral (1886-1973).
Nessa época, ainda contava com a ajuda da avó para fazer os pontos mais difíceis e o desafio era transformar o “Abaporu” em uma peça de renda. Para isso, ele fez vários estudos de como utilizar cores e profundidades na renda e principalmente trabalhou a questão da moldura, que na época não tinha condições de comprar. “Peguei um serrote velho e umas madeiras e produzi minha própria moldura. E o que era apenas o encerramento de um curso, virou o início de um grande negócio”, detalha o artesão.
A experiência abriu caminho para uma produção autoral em que Rafael recria, por meio da renda renascença, obras de arte modernistas, cenas e paisagens. O processo de criação começa a partir da escolha da imagem que será reinterpretada.
O desenho é analisado para ser transformado em arabescos da renda. O lacê é alinhavado formando a estrutura e, depois, os pontos são construídos manualmente, preenchendo cada espaço até que a imagem ganhe forma.
Rafael Leite, artesão.
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O resultado desse trabalho minucioso são quadros de composição única. “Eu defino o meu trabalho como uma busca por ressignificar a renda renascença. Sou fascinado por artes e liguei as duas paixões. Meu trabalho é uma linguagem artística, uma forma de me expressar”, conta.
Esse trabalho já levou as criações de Rafael a diferentes espaços, no Brasil e no exterior. As obras “Arco do Triunfo”, “Vitrais do Louvre” e “Torre Eiffel”, confeccionadas exclusivamente para a Divine Académie, foram exibidas em uma mostra no Carrossel do Louvre (Carrousel du Louvre), em Paris, em 2025. Peças de Rafael Leite já fizeram parte de cenários de novelas da Rede Globo, como “Mar do Sertão”, e ele foi o único do Agreste entre os selecionados do Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato 2026, que destacou apenas seis pernambucanos.
O reconhecimento da trajetória de Rafael coincide com outra conquista ligada às suas origens. Integrante da associação responsável pelo pedido de registro, o artesão também comemora o reconhecimento recente da renda renascença de Poção como Indicação Geográfica (IG), concedido no último dia 29 de setembro. “Agora eu já vou poder utilizar dois selos. Um da renascença de Poção como Indicação Geográfica e o selo do Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato. É um diferencial que vai ter no meu artesanato, e eu estou bastante feliz”.

