Em Santa Maria da Boa Vista, no Sertão do São Francisco, a banana — quarto alimento mais consumido do planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) — é sinônimo de renda, trabalho e oportunidade. O município, considerado o maior produtor de banana do Brasil segundo o IBGE, também tem um desafio: o desperdício de toneladas da fruta que não chegam ao mercado consumidor.
Foi justamente a partir desse cenário que nasceu o Projeto Fulgêncio, iniciativa criada por estudantes da zona rural do município com foco no reaproveitamento da banana, evitando o descarte. O projeto une sustentabilidade, educação empreendedora e inovação social, transformando excedentes da produção agrícola em novos produtos alimentícios com potencial de mercado. O nome da iniciativa faz referência ao perímetro irrigado do Projeto Fulgêncio, onde vivem mais de duas mil famílias e onde a banana pacovan domina. A região possui cerca de 12 mil hectares cultivados, com produção durante todo o ano.
A ideia surgiu dentro da Escola Municipal Raízes, envolvendo estudantes do 8º e 9º anos que participaram do programa Jovens de Impacto, do Sebrae Pernambuco. A iniciativa estimula alunos a desenvolver soluções para problemas enfrentados pelas comunidades onde vivem. No caso de Santa Maria da Boa Vista, o caminho encontrado pelos estudantes foi transformar desperdício em oportunidade.
O principal cultivo da região é a banana, que passa por intermediários até chegar aos mercados consumidores das capitais e grandes cidades do Nordeste. As bananas aproveitadas pelo projeto são as chamadas ‘pontas de cacho’, menores e sem valor comercial. Em algumas colheitas, chegam a sobrar cerca de dois mil cachos. Antes, o destino era basicamente a alimentação animal, mas ainda havia muito desperdício
Sandra Wanderley, gestora da Escola Municipal Raízes.
O que começou como uma atividade escolar rapidamente ultrapassou os muros da instituição de ensino e mobilizou agricultores, empresários, escolas, entidades públicas e a Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista em uma grande rede colaborativa. Hoje, o projeto produz doces, bolos e outros derivados da banana, como a farofa feita a partir da casca da fruta e a chamada “carne de banana”, utilizada na produção de hambúrgueres com potencial para conquistar o mercado vegano.
PRÊMIO
As novas versões da banana ganharam espaço entre consumidores da cidade e de municípios vizinhos, abrindo caminho para importantes reconhecimentos. O Projeto Fulgêncio conquistou o segundo lugar no Jovens de Impacto, realizado no Recife, e posteriormente venceu a etapa estadual do Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora, na categoria Empreendedorismo na Escola.
Os jurados reconheceram o potencial da iniciativa de transformar um produto que antes seria descartado em alimentos de alto valor agregado.“Ações como essa promovem a educação empreendedora, desenvolvendo habilidades de produção, gestão e vendas, além de gerar renda e incentivar o consumo sustentável. Essa cadeia beneficia agricultores, estudantes e pessoas em situação de vulnerabilidade, reduz perdas agrícolas e fortalece a economia local, estimulando o protagonismo juvenil, a inovação e a sustentabilidade”, destaca Kátia Sousa, especialista em inovação do Sebrae/PE.
Com a repercussão estadual, o projeto avançou ainda mais e representou Pernambuco na etapa nacional do Prêmio Sebrae Prefeitura Empreendedora. Entre milhares de iniciativas inscritas no país, a Escola Raízes ficou entre as 24 melhores escolas do Brasil. Agora, os próximos passos incluem ampliar o número de estudantes participantes e inscrever o projeto em novas competições, como o Desafio Liga Jovem e o Prêmio Educador Transformador.
BANANA NA MERENDA
A Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista avalia inserir os produtos derivados da banana na merenda escolar da rede municipal. Para isso, merendeiras estão sendo capacitadas para preparar e incluir as receitas no cardápio. A iniciativa busca estimular o empreendedorismo feminino, fazendo com que essas mulheres produzam e vendam seus produtos.
Outra proposta em estudo é a criação de uma cooperativa para facilitar o recolhimento das bananas utilizadas pelo projeto e permitir que pequenos produtores da região comercializem as chamadas “pontas de cacho”, gerando uma nova fonte de renda para as famílias agricultoras.
TERRA DA BANANA
Santa Maria da Boa Vista lidera a produção nacional de banana, segundo dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Somente em 2024, o município colheu cerca de 210 mil toneladas da fruta, movimentando aproximadamente R$ 378 milhões. O desempenho consolida a cidade como um dos principais polos de fruticultura do Nordeste brasileiro.

