A Renda Renascença de Poção, município do Agreste pernambucano, acaba de ser reconhecida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) como a mais nova Indicação Geográfica (IG) do País. O reconhecimento é resultado de um trabalho conjunto do Sebrae Pernambuco e da Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco (Adepe), para valorizar produtos que carregam a identidade dos territórios onde são produzidos.
Concedido em apenas quatro meses após protocolo do pedido junto ao INPI, o registro reforça a importância da Renda Renascença como tradição transmitida entre gerações em Poção, cidade conhecida como Capital da Renda. Em julho deste ano, o produto também foi reconhecido, por unanimidade, como Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC). Para o superintendente do Sebrae/PE, Murilo Guerra, o resultado traduz uma estratégia de atuação da instituição que tem o desenvolvimento territorial como um de seus pilares.
Quando um saber construído e preservado ao longo de gerações passa a ser também um ativo do território, buscamos criar condições para que essa riqueza gere oportunidades para quem a mantém viva. A Indicação Geográfica agrega valor à Renda Renascença de Poção e amplia as possibilidades de desenvolvimento para toda a região.
Murilo Guerra, superintendente do Sebrae/PE.
“Estamos muito felizes com o reconhecimento da Renda Renascença de Poção, a primeira das 19 Indicações Geográficas que estamos trabalhando por meio da Adepe, em parceria com o Sebrae. É uma conquista que valoriza o talento das rendeiras, protege um saber-fazer que atravessa gerações e fortalece a identidade cultural de Pernambuco. Ao mesmo tempo, a IG é uma importante ferramenta de desenvolvimento econômico, que pode agregar valor ao produto, ampliar oportunidades de mercado e gerar mais renda para quem vive desse trabalho”, comenta Roberta Andrade, diretora-presidente interina da Adepe.
PROJETO
A conquista da Indicação Geográfica foi resultado de um processo de estruturação que envolveu a organização do grupo produtivo e da governança territorial, além da elaboração dos documentos necessários ao pedido do reconhecimento. Entre eles, o Caderno de Especificações Técnicas, que reúne as características, os padrões de qualidade e as regras para preservar os saberes relacionados à produção da Renda Renascença de Poção. Responsável pela análise do pedido, o INPI é o mesmo órgão que regula o uso de marcas e patentes, o que reforça a IG como uma propriedade intelectual territorial e coletiva.
Para o vice-presidente da Associação dos Artesãos e Artesãs, Rendeiros e Rendeiras de Poção (Renascença), Lindenberg Nóbrega, o reconhecimento é uma reparação histórica aos artesãos que mantêm viva a tradição da Renda Renascença, muitas vezes invisibilizados no comércio da Renda Renascença para as grandes grifes e marcas. A entidade, que representa os produtores, terá um papel crucial na gestão da IG e no controle da observância das regras estabelecidas para uso da indicação.
Com essa conquista, os mestres e detentores do saber fazer da Renda Renascença de Poção ganharão visibilidade, impulsionando o vetor econômico da nossa cidade, que é basicamente construído pelas mãos de homens e mulheres artesãos. Essa indicação de procedência traz uma potencialidade que já existe e agora vamos trabalhar para levar essa renda ainda mais longe.
Lindenberg Nóbrega, vice-presidente da Associação Renascença.
RENDA RENASCENÇA
Técnica artesanal feita com linha, agulha e lacê, a Renda Renascença tem origem atribuída à Itália, possivelmente a Veneza, no século XVI. Durante séculos, esse saber fazer foi transmitido de forma restrita em conventos e instituições religiosas, preservando seu valor econômico e simbólico.
No Brasil, acredita-se que a técnica tenha chegado também por meio de ordens religiosas. Em Pernambuco, a técnica chegou ainda no período colonial, sendo preservada no Convento de Santa Teresa, em Olinda. A técnica chegou a Poção ainda na década de 1930, por meio de Maria Pastora, que aprendeu o ofício com freiras francesas e a ensinou à amiga Elza Medeiros (Lala).
A partir de um núcleo inicial de oito mulheres, surgiu na cidade o primeiro grupo dedicado à Renda Renascença. Em períodos de seca, a renda começou a ser difundida como uma alternativa econômica, principalmente para as mulheres. Ao longo do século XX, a produção cresceu e também passou a abastecer mercados regionais, ressignificando o produto que antes era visto como artigo de luxo.
NOVAS IGs
A iniciativa da Adepe e do Sebrae/PE trabalha ainda para reconhecer outras 18 IGs: Mel do Sertão do Araripe; Queijo Coalho do Araripe; Carne Ovina do Sertão do São Francisco; Manga do Vale do São Francisco; Uva do Vale do São Francisco; Café de Triunfo; Artesanato em Madeira de Sertânia; Café de Taquaritinga do Norte; Abacaxi de Pombos; Artesanato em Barro de Tracunhaém; Artesanato em Barro do Alto do Moura; Queijo Coalho do Agreste; Bolo Souza Leão de Pernambuco; Bolo de Rolo Pernambucano; Bolo de Noiva Pernambucano; Redes de Tacaratu; Bordado de Passira; e Cachaça de Pernambuco.

