Natural de Bezerros, no Agreste pernambucano, José Pedro Soares, conhecido pela sua arte como Zé Pedro, carrega há mais de 30 anos uma relação íntima com o artesanato que ultrapassa o fazer manual e ajuda na preservação do meio ambiente. Reverenciado como um dos mascareiros mais tradicionais do município, ele integra uma tradição que é marcada pelo reaproveitamento do papel usado, prática comum entre os artesãos locais. Agora, ele se prepara para o período de maior faturamento do ano: o Carnaval.
É no silêncio do seu refúgio criativo que a mágica do aproveitamento e da transformação acontece. O ateliê funciona na própria casa do artesão e também na sede da associação de artistas, instalada no antigo prédio da cadeia pública (Rua Luiz de Souza, nº 11, Centro). Lá, o material descartado ganha cores e vida.
Trabalho com cola e papel já utilizado, como jornal, caderno ou revista. Faço a massa com farinha de trigo e água, e depois vem a pintura, sempre colorida, dando vida às máscaras.
Zé Pedro, artesão de Bezerros.
A técnica utiliza os tradicionais papel colê e papel machê. Parte do insumo é comprada, como o jornal (hoje mais difícil de encontrar devido à queda no consumo de impressos); a outra vem de doações da comunidade e de escolas. Nas mãos dos artesãos, detalha Zé Pedro, a lógica se inverte: ‘O que ia virar lixo, vira arte’, como ele mesmo define.
A folia é o motor da produção. Segundo Zé Pedro, nessa época do ano a demanda cresce de forma expressiva, chegando quase a dobrar percentualmente a produção. “A busca por máscaras aumenta cerca de 90% ou mais”, conta. O artesão trabalha sozinho durante todo o ano, armazenando peças e se organizando com antecedência para dar conta da procura intensa nos meses que antecedem a folia. Embora haja aumento da demanda nesse período, ele prefere não contratar ajudantes, mantendo o processo artesanal e autoral de ponta a ponta.
As máscaras, símbolo maior do Carnaval de Bezerros, são produzidas em diferentes tamanhos e valores. As de rosto custam R$ 30, as de 60 centímetros saem por R$ 80, e as de 1 metro chegam a R$ 120. As peças atraem foliões e lojistas de várias regiões do Brasil, além de compradores institucionais, como prefeituras, que procuram o artesanato local para ações culturais e decorativas.

Além das vendas diretas, Zé Pedro participa da Vitrine Criativa, espaço montado ao lado da Igreja Matriz durante o Carnaval, fruto de uma parceria entre a Prefeitura de Bezerros e o Sebrae/PE, que valoriza e dá visibilidade ao artesanato local. “É uma oportunidade de mostrar nosso trabalho e vender direto ao público”, destaca. Ao longo da carreira, o artesão participou de diversas capacitações oferecidas pelo Sebrae/PE, como cursos de vendas e design, que contribuíram para o fortalecimento do seu negócio.
A trajetória dele também passa por importantes feiras e eventos de artesanato no Brasil. Zé Pedro já expôs e vendeu suas peças em eventos como a Fenearte, Fenahall, Festival de Artesanato de Ribeirão (SP), Feira da Paixão de Fazenda Nova, além de eventos em vários estados. Suas máscaras também já ultrapassaram fronteiras e foram comercializadas até para fora do país, levando a cultura pernambucana para o além-mar.
Hoje à frente da Associação dos Artesãos de Bezerros (AAB), o mestre divide seu tempo entre o ateliê e o incentivo às novas gerações. Sua trajetória concilia a produção artística com a missão de fortalecer o coletivo, incentivar novos artesãos e preservar a tradição que faz do município uma referência no Carnaval pernambucano.
Com papel, criatividade e resistência, Zé Pedro é exemplo de sustentabilidade, identidade cultural e economia criativa. Por meio de suas máscaras, ele reafirma o artesanato de Bezerros e garante que a tradição se reinvente com alma e consciência a cada Carnaval.
PAPANGUS
O Carnaval do município de Bezerros, localizado a 100 quilômetros do Recife, é famoso pela Folia do Papangu, sendo um dos maiores do interior e Patrimônio Cultural de Pernambuco. Com atrações multiculturais, desfiles e prêmios para fantasias, a festa aquece a economia criativa local e mantém viva a tradição. O grande destaque são personagens mascarados, os papangus, que usam fantasias elaboradas e saem pelas ruas, fazendo parte de uma tradição que remonta ao século XIX.

