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O mangue faz parte da paisagem, da história e da cultura de Pernambuco. Presente ao longo do ecossistema costeiro do estado, ocupa uma área de cerca de 16,8 mil hectares, segundo dados do Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil (ProManguezal).  Além da importância ambiental, o ecossistema também está ligado à economia e aos modos de vida das comunidades que vivem em seu entorno. Essa relação, que atravessa diferentes territórios e saberes, também encontrou espaço para se transformar em negócios.

Antes de virar nome de hamburgueria, o mangue já fazia parte da vida de Luiz Paz. Criado no bairro Jardim Beira-Rio, no Recife, ele passou a infância entre caranguejos, siris e guaiamuns. O contato com o ecossistema se misturou à relação com a cultura pernambucana e, anos depois, acabou dando nome a um negócio.

Durante a pandemia, quando perdeu boa parte dos clientes que mantinham seu trabalho como publicitário, Luiz precisou encontrar uma nova fonte de renda. A ideia inicial era abrir uma hamburgueria embaixo da própria casa, junto com a esposa, Jhane Kelly. O nome surgiu durante uma caminhada perto do mangue.

Na hora em que ela disse ‘hamburgueria’, eu gostei da ideia. Sempre vi hamburgueria com bons olhos, porque é um lanche rápido, preparado de forma simples. Mas minha mente bagunceira já resolveu bagunçar tudo. Quando a gente estava ali ao lado do mangue, eu disse: ‘que tal Mangue Burger?’

Luiz Paz, empresário e fundador da Mangue Burger.

ASN Pernambuco - Agência Sebrae de Notícias
Luiz Paz e a esposa, Jhane Kelly, estão à frente da Mangue Burger, negócio inspirado no mangue e na cultura pernambucana.

O que começou como uma tentativa de complementar a renda da família acabou se transformando em um negócio especializado em hambúrgueres de frutos do mar. No cardápio, aparecem ingredientes diretamente ligados ao território onde Luiz cresceu, como siri, marisco, caranguejo, aratu e camarão. Do mar, entram ainda polvo e peixe.

A relação com o território também aparece na escolha dos fornecedores e na valorização da pesca artesanal. “O camarão é de viveiro, mas ele é criado no mangue, então também tem uma ligação direta com o mangue”, explica Luiz.

A identidade da Mangue Burger, porém, vai além dos ingredientes. A cultura do Manguebeat, movimento com o qual Luiz mantém uma relação desde sua trajetória na música e na produção cultural pernambucana, também chegou ao cardápio. “E, quando falamos de cultura, do Manguebeat, temos todos, exatamente todos. Começa pelo Chico, que é o hambúrguer de siri, e passa pelo Nação Zumbi, que é siri com camarão, e por aí vai”, afirma Luiz.

ASN Pernambuco - Agência Sebrae de Notícias Sanduíche “MeuMaracatuPesaUmaTonelada”, um dos hambúrgueres da Mangue Burger inspirados na cultura pernambucana.

UM PASSO À FRENTE E VOCÊ NÃO ESTÁ MAIS NO MESMO LUGAR

A experiência de Luiz mostra uma das formas pelas quais o mangue se transforma em negócio. Em outro caminho, o ecossistema também serve como ponto de partida para experiências que levam visitantes a conhecer a história, a cultura e a biodiversidade do Recife. Foi com essa proposta que a guia de turismo Manu Rodrigues criou o roteiro “Um passo à frente e você não está no mesmo lugar”. A ideia surgiu durante um curso de Turismo Criativo e acabou se tornando seu trabalho de conclusão. Apaixonada pela cultura popular pernambucana, Manu decidiu reunir no mesmo percurso elementos que ajudaram a formar o Manguebeat e que também fazem parte da identidade cultural do estado.

O roteiro passa por locais como a Praça do Arsenal, a Rua do Bom Jesus, o Marco Zero, a Rua da Moeda, o Monumento Manguebeat, o Mercado de São José e o Pátio de São Pedro. Ao longo do caminho, a história de Chico Science se mistura a manifestações como maracatu, coco de roda e ciranda, além de atividades ligadas à educação ambiental e ao artesanato.

Manu acompanha grupo durante roteiro pelo Memorial Chico Science.

Mais do que uma caminhada por pontos históricos, a experiência também envolve oficinas de coco de roda, pandeiro e maracatu, além da confecção de um agbê com um artesão do Mercado de São José. O roteiro ainda aborda a biodiversidade do manguezal e a importância do ecossistema para a população recifense, unindo turismo, educação ambiental e valorização do território.

Manu também desenvolve experiências no Litoral Norte de Pernambuco, em municípios como Igarassu, Itapissuma e Itamaracá. Os roteiros incluem oficinas de cultura popular, atividades de plantio de mangue, experiências com marisqueiras, pesca artesanal e culinária tradicional baseada nos frutos do ecossistema.

ASN Pernambuco - Agência Sebrae de Notícias A guia de turismo Manu Rodrigues criou um roteiro inspirado no Manguebeat e na cultura pernambucana.

E o movimento Manguebeat é isso, né? É um movimento que fala de desigualdade social, que tem uma pauta muito forte. A gente fala do desmatamento do mangue, das espécies do mangue, do quanto o mangue ainda é importante para a população recifense, inclusive em relação à economia e à sobrevivência.

Manu Rodrigues, guia de turismo.

O trabalho ganhou reconhecimento fora do estado. Em 2025, o roteiro dedicado ao Manguebeat foi escolhido como melhor roteiro do mundo pela Rede Internacional de Turismo Criativo, concorrendo com experiências de 16 países. Além disso, foi reconhecido pela UNESCO e pelo Ministério do Turismo no Guia de Afroturismo Brasileiro e recebeu o Prêmio Nacional de Turismo no segmento de afroturismo.

DO DESCARTE À BIOJOIA

Se o turismo transforma o mangue em experiência, a moda encontra no ecossistema uma matéria-prima que normalmente terminaria no lixo. À frente da Moda Mangue Biojoias, Luciana Silva encontrou nas escamas de peixe uma forma de transformar resíduos em acessórios e, ao mesmo tempo, criar uma alternativa de geração de renda para mulheres de comunidades pesqueiras.

A iniciativa é ligada ao Centro Escola Mangue, organização socioambiental que atua desde 2005 com a preservação e a educação sobre o manguezal. A proposta surgiu com o objetivo de criar um arranjo produtivo para mães de alunos da organização. O começo, porém, esteve longe de ser simples. “A gente deu muita cabeçada tentando vender brincos de escama de peixe, parecidos com os de hippie, com um acabamento horroroso”, comenta Luciana.

O projeto ganhou um novo impulso em 2016, quando foi selecionado em um edital do Marco Pernambucano da Moda. A partir daí, vieram conhecimentos sobre moda sustentável, planejamento e gestão do negócio. O trabalho envolve hoje cinco mães solo diretamente e outras cinco mulheres de forma indireta, entre crocheteiras e costureiras. Cerca de seis adolescentes, entre 13 e 17 anos, também participam das atividades quando estão fora do horário escolar.

As escamas são compradas separadas por espécie e higienizadas junto a vendedores de peixe, fazendo o dinheiro circular também nessa cadeia. Depois, passam por diferentes etapas até serem transformadas em biojoias. “Nós fazemos o beneficiamento, tipo tingimento natural ou pintura com verniz vitral. Furamos com furadeira artesanal e fazemos as amarrações com cordão de algodão”, diz Luciana.

O reaproveitamento das escamas é apenas uma parte da proposta. A marca também trabalha com outros materiais ligados ao mar e à pesca, como conchas, búzios, redes reaproveitadas, bambu, vidro e resíduos naturais. Para Luciana, essa relação com o mangue está justamente na capacidade de transformar.

Mais do que produzir acessórios, a marca transforma resíduos em beleza e contribui para preservar e divulgar a identidade cultural dos territórios pesqueiros

Luciana Silva, empresária da Moda Mangue Biojoias.

 Brincos feitos com escamas de peixe reaproveitadas
 Colar produzido com materiais ligados ao universo do mangue
 Brincos feitos com escamas de peixe reaproveitadas
 Peças da ModaMangue produzidas a partir de materiais reaproveitados
 Brincos feitos com escamas de peixe reaproveitadas
 Colar produzido com materiais ligados ao universo do mangue

IDENTIDADE QUE GERA NEGÓCIO

Nas três iniciativas, o mangue deixa de aparecer apenas como cenário e passa a fazer parte do próprio negócio. Está nos ingredientes da Mangue Burger, nas experiências de Manu e nas matérias-primas da Moda Mangue Biojoias. Em comum, os trabalhos transformam elementos do território em produtos e experiências que movimentam cadeias de trabalho, valorizam conhecimentos loais e reforçam a identidade cultural de Pernambuco.

Para Aline Cavalcanti, especialista em Turismo do Sebrae/PE, é justamente a força dessa identidade que permite transformar elementos do território em oportunidades de negócio.

A economia criativa transforma a criatividade em ativo econômico. E, quando temos um elemento do território tão forte como o mangue, ele vira inspiração. Os empreendedores se inspiram nesse ativo cultural para transformá-lo em produtos e serviços. Essa cultura é o que nos diferencia, é a nossa identidade. É isso que as pessoas querem ver e consumir

Aline Cavalcanti, especialista em Turismo do Sebrae/PE.

A especialista em Economia Criativa do Sebrae/PE, Verônica Ribeiro, pontua, no entanto, que esse olhar para o mangue deve estar acompanhado da preocupação com sua conservação. Isso porque esse ecossistema é fundamental para o equilíbrio ambiental e para a manutenção dos modos de vida que dependem dele. “O manguezal tem importância econômica, social, cultural e ambiental muito alta para Pernambuco. Entretanto, ele não deve ser tratado apenas como uma fonte de matérias-primas. O manguezal é um capital natural: sua conservação mantém os estoques pesqueiros, protege o litoral, sustenta comunidades tradicionais e viabiliza negócios de gastronomia, turismo, artesanato, pesca e bioeconomia”, esclarece.

ASN Pernambuco - Agência Sebrae de Notícias
Luciana Silva usa brinco produzido pela ModaMangue a partir de escamas de peixe reaproveitadas.
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