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Rancho Aruanda leva inclusão e cuidado a crianças no Sertão do Araripe

Empreendedora transformou a paixão por cavalos em iniciativa que muda a vida de crianças da região
Por Samuel Santos
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Às vezes, o propósito de uma vida inteira nasce de uma fantasia de criança. Para a empresária Roseane Lacerda, a semente do que viria a se tornar um projeto de alto impacto social foi plantada enquanto ela assistia à televisão. “Minha lembrança de menina era daquele desenho Cavalo de Fogo; eu era louca para ter aquele cavalo”, recorda com carinho.

Mas foi o choque com a realidade, já na vida adulta, que transformou o sonho infantil em missão. Roseane acompanhava pela TV o drama do ator Gerson Brenner, que lutava para recuperar os movimentos após um assalto trágico. “Ele começou a fazer reabilitação por meio da equoterapia e evoluiu bastante. Aquilo me tocou profundamente e percebi como a nossa região era carente desse tipo de atendimento”, conta. Foi esse o estopim: a união entre a paixão antiga pelos animais e a urgência de servir ao próximo.

Dessa sensibilidade nasceu o Rancho Aruanda (@ranchoaruanda2019), encravado na zona rural de Araripina, no Sertão do Araripe. Mais do que uma propriedade rural, o local se tornou um exemplo vivo de empreendedorismo social. Ali, a equoterapia — modalidade que utiliza cavalos para o desenvolvimento biopsicossocial — deixa de ser um serviço de luxo para se tornar acessível. O espaço é voltado ao tratamento e reabilitação de crianças autistas e com necessidades especiais, oferecendo uma alternativa vital para famílias da região que, sem a iniciativa de Roseane, não teriam condições de custear esse cuidado.

Empreender, para Roseane, tornou-se o caminho para fazer a diferença, provando que um negócio pode (e deve) contribuir diretamente para o bem-estar da sociedade.

O empreendimento surgiu em meados de 2019. Roseane comprou o terreno, transformou-o do zero e assim nasceu o Rancho Aruanda – Centro de Equoterapia, Reabilitação e Inclusão Social. Inicialmente com 12 crianças matriculadas, as terapias eram realizadas sem cobrança de mensalidades. Para sustentar a iniciativa, a empreendedora buscou parcerias, que vieram a conta-gotas. Mesmo assim, o projeto seguia, fazendo a diferença na região.

Como a grande maioria das trajetórias empreendedoras, esta também é marcada por altos e baixos. O rancho quase fechou as portas após ela e o marido se envolverem em um grave acidente de trânsito, que os deixou impossibilitados de trabalhar por meses. O negócio ficou parado, as contas se acumularam e a saída mais lógica parecia ser o encerramento das atividades. Ao procurar o Sebrae para encerrar seu CNPJ, a empresária foi convencida a dar mais uma chance ao seu sonho.

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Estava disposta a vender tudo e fechar o espaço, mas fui convencida do potencial do meu negócio. Fui orientada a realizar algumas mudanças para o projeto se tornar sustentável.

Roseane Lacerda, empreendedora social.

A prova de fogo e a virada

O caminho para o reposicionamento veio por meio de consultorias na área de marketing, voltadas à divulgação e ao impulsionamento do projeto, além da participação no Empretec, metodologia da ONU aplicada no Brasil pelo Sebrae com o objetivo de ajudar empreendedores a enxergar novas oportunidades e expandir seus negócios. Com os ajustes realizados, o Rancho Aruanda voltou a ganhar força, culminando em uma cerimônia de reinauguração, realizada em novembro do ano passado, que contou com a presença de novos alunos e a entrega de kits de segurança para as terapias com cavalos.

A retomada das atividades regulares só foi possível graças à submissão do projeto social ao Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Araripina (CMDCA), que garantiu os recursos necessários para a realização das aulas. Ainda assim, o espaço busca novas parcerias com empresas, instituições e pessoas físicas para ampliar o atendimento. Além de contribuições financeiras, podem ser doados medicamentos, brinquedos, objetos lúdicos e ração para os cavalos. As formas de colaboração estão disponíveis no perfil oficial do Rancho Aruanda no Instagram.

Atualmente, 30 crianças de Araripina e cidades vizinhas são atendidas no rancho, mas há fila de espera e de esperança. A instituição só poderá receber novos alunos após a aquisição de mais kits de segurança. A equipe multidisciplinar é formada por fisioterapeutas, fonoaudiólogos, equitadores e terapeutas especializados no uso de equinos, além dos filhos e do marido de Roseane, todos voluntários no projeto.

As atividades são realizadas com três cavalos e o público-alvo é composto por crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Síndrome de Down e ansiedade, oriundas de famílias de baixa renda. O tratamento é gratuito.“Por mais que algumas famílias recebam benefícios, como o BPC, já existe uma despesa muito grande, seja para o sustento ou para a medicação, geralmente muito cara. Por isso, focamos em dar a oportunidade de tratamento a esse público específico, graças à parceria com o CNDCA”, ressalta.

De acordo com a empresária, o negócio ainda não gera lucro, com a operação sustentada pela boa vontade de quem está disposto a ajudar. Mais do que indicadores financeiros, a maior recompensa é medida em sorrisos. “É bom saber que, de alguma forma, você contribui para a evolução dessas crianças. Elas se divertem e evoluem quando estão montando. As mães comentam comigo sobre os resultados positivos e a melhora dos filhos depois do contato com os cavalos”, comenta conclui Roseane, que se agarra nesses relatos para continuar em frente: “Isso, para mim, é muito gratificante e nos dá energia para seguir em frente e não pensar mais em desistir”.