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Café de Triunfo e artesanato em madeira de Sertânia avançam para conquistar Indicação Geográfica

Pedido de reconhecimento junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial tem potencial de valorizar tradições e abrir mercados para empreendedores do Pajeú e Moxotó
Por Samuel Santos
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Identidade é o que torna um território único. Nos sertões do Pajeú e do Moxotó, o potencial do que é produzido por empreendedores locais está prestes a ganhar um importante reconhecimento. O café cultivado no município de Triunfo e o artesanato em madeira de Sertânia estão mais perto de se tornar novas Indicações Geográficas (IGs) brasileiras. O registro, representado por um selo, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), funciona como um reconhecimento oficial de origem, agregando valor ao produto e possibilitando acesso a novos mercados.

A gestora do projeto de Indicação Geográfica do Sebrae/PE, Roberta Andrade, reforça que a importância da IG está no fato de que ela serve para proteger produtores e territórios.

É comum que, quando um produto ou lugar ganha fama ou notoriedade pela produção de algo, outras pessoas passem a utilizar esse nome indevidamente — o café de Triunfo, o artesanato de madeira de Sertânia. Outro ponto é a valorização e o reconhecimento, que atendem a um consumidor que busca não apenas adquirir um produto, mas levar para casa algo que carregue história e exclusividade.

Roberta Andrade, gestora do projeto de Indicação Geográfica do Sebrae/PE.

O caminho percorrido até a submissão do pedido no INPI – fase atual do projeto – é resultado de articulações do Sebrae Pernambuco e da Agência de Desenvolvimento de Pernambuco (Adepe), com base em um diagnóstico das potencialidades das mesorregiões do estado. Durante mais de um ano, foram reunidas evidências que justificam o selo de exclusividade da produção nos dois municípios. Ao todo, Pernambuco pode conquistar 16 indicações geográficas.

Após o protocolo do pedido, a expectativa é de que a análise pelo INPI seja concluída até 2027. “O Governo de Pernambuco, por meio da Adepe, acompanha de perto cada etapa desse processo, que integra a estratégia de desenvolvimento econômico do nosso estado. Ao trazer visibilidade para o café de Triunfo, o artesanato de madeira de Sertânia e outros 14 ícones da nossa cultura, fortalecemos cadeias produtivas, incentivamos a organização dos produtores e ampliamos o acesso a mercados mais estruturados e competitivos. A Indicação Geográfica é uma política que agrega valor, protege a identidade local e transforma tradição em oportunidade sustentável para o nosso Pernambuco”, comentou Roberta Figueirôa, diretora-geral de Fomento, Inovação e Arranjos Produtivos e presidente-interina da Adepe.

Mãos que dão vida e simbolismo

Em Sertânia, a vida sertaneja retratada a partir da lapidação da madeira da umburana tem gerado oportunidades e renda para mais de 30 empreendedores. O diferencial das peças produzidas está nas formas alongadas das esculturas, que retratam figuras humanas magras, marcadas pela seca, além de animais típicos da região.

Marcos de Sertânia é um exemplo da força da economia criativa local. O artesão ganhou notoriedade pelos cachorros inspirados na cadela Baleia, personagem do romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Além de sua própria produção, Marcos é mestre e professor, ensinando suas técnicas a jovens do bairro onde está localizada sua oficina. A partir dele, uma rede de artistas da madeira ganhou forma na região — um talento coletivo que agora pode alcançar novos espaços.

Colocar algo único, produzido numa região como a nossa, em evidência é uma chancela do valor do nosso trabalho. Muitos, como eu, vivem hoje da arte em madeira. É colocar Sertânia no lugar que ela merece.

Marcos de Sertânia, artesão.

O sabor que nasce no Brejo de altitude

A bebida mais consumida no mundo não é igual em todo lugar — e o café de Triunfo, no Sertão do Pajeú, é prova disso. A singularidade do grão produzido em terreno diferenciado e sob clima de temperaturas mais baixas em boa parte do ano, proporcionadas pela localização do município, resulta em uma bebida encorpada, repleta de sabores e histórias.

A possibilidade de reconhecimento de mais de 150 anos de produção anima os produtores que cultivam o grão há gerações.

“Eu cresci vendo meus avós e depois meus pais cultivarem café e dei continuidade a essa tradição. Hoje, eu e minha esposa plantamos, colhemos, torramos e vendemos em feiras aqui em Triunfo. Também enviamos para Recife e até para outros estados. Recentemente, mandamos para uma cliente em Santana. Com o selo, a expectativa é expandir ainda mais”, conta o produtor Paulo Ferreira, do Café Brejinho Ferreira.